17-10-2011 15:32:50

Marrakech :Diario de uma brasiliera -2

2 diario de Livia Lucas "Essa semana além de estudar e ensaiar, visitei o Jardins de Menara, com seus camelos, seu tanque gigante repleto de peixes, e rodeado de árvores e de jovens estudantes, que tocavam e cantavam um ritmo 6X8, contagiante"
Livia Lucas (Marrakech) - 2

A palavra oportunidade nunca teve tanto significado pra mim, como agora, no lugar onde estou, no trabalho que exerço, no contexto em que minha vida se encontra.
Dentro de mim um turbilhão de emoções, tão efemeras quanto o próprio tempo. Estou quebrando há duras penas meus apegos às minhas próprias opiniões, e aceitando a necessidade do momento. Pois quando o assunto é música, muitas vezes me revisto de uma resistência implacável, principalmente a tudo que soa comercial, que soa fácil, que soa repetitivo. E o meu atual trabalho, tanto quanto o público com quem lido, são completamente diferentes dos lugares e pessoas aos quais estava habituada a lidar ao longo desses quase 10 anos de boteco e palco. As pessoas que assistem à banda na qual eu trabalho querem justamente os standars, as músicas que soam familiar. E nessa busca por um repertório comercial que não me "desagrade" musicalmente, acabei garimpando, e encontrei preciosidades como os merengues de Juan Luís Guerra, clássicos do afro-peruano de Eva Ayllón, de standards do son cubano reconhecidos, os cha-cha de Célia Cruz e outros grandes artistas, cumbias tradicionais colombianas, e alguns pop latinos que me apetecem cantar, e esses me custam um pouco mais aceitar. Na negociação do repertório ainda posso escolher bastante! Ufa! 

"Muita gente ainda é criada na educação machista e retrógrada que reprime de forma desmedida o comportamento feminino"


E a palavra oportunidade chega aos meus ouvidos... oportunidade de abertura de gostos, cabeça e opinião, para poder agradar ao público. Percebi que estava muito aferrada à certos conceitos, e fechada demais, julgando previamente o que não se adequava aos meus gostos. E de que serve isso??? Serve para endurecer-nos um pouco mais! E afinal são 4 meses de trabalho, e uma grande oportunidade de conhecer-me mais a fundo, de conhecer Marrakesh, de aproveitar os grandes músicos com quem trabalho (incluindo a grande pianista Lazara Cachao) de cantar cada dia, de aprofundar meus conhecimentos em diversos estilos da música latino americana, de aprender um novo idioma, de aproximar-me da riquesa da música africana e saborear essa deliciosa gastronomia.

Essa semana além de estudar e ensaiar, visitei o Jardins de Menara, com seus camelos, seu tanque gigante repleto de peixes, rodeado de árvores e de jovens estudantes, que tocavam e cantavam um ritmo 6X8, contagiante, justo no momento em que me aproximei. Os Marroquinos (normalmente) tem uma personalidade forte, falam alto, e tem um olhar muito seguro (as vezes invasivo), o que muitas vezes me intimida. 
Muita gente ainda é criada na educação machista e retrógrada que reprime de forma desmedida o comportamento feminino, o que para nós mulheres ocidentais é bastante desconfortável. Ontem mesmo, quando saí sozinha percebi claramente esse comportamento (e eu trato de cobrir bastante meu corpo), muitas vezes o olhar e as palavras dos homens daqui me agridem bastante, quando não amedrontam. Essa semana presenciei um episódio desagradável perto de casa. Um homem grande e forte batia com toda força na cara de uma mulher, em via pública... uma cena lamentável (e pelo visto, comum por aquí). Nessa mesma semana houve uma abordagem violenta contra uma mulher, no elevador do meu edificio. E agora temos que voltar do restaurante acompanhadas pelos músicos, até a porta do apartamento. Na rua onde vivemos há dois restaurantes caros, e também um cabaret barato, e durante à noite é preciso estar muito atento. É duro ser mulher no Marrocos, ao menos para uma mulher criada dentro dos códigos ocidentais.
Porém, nos bares, discotecas e casas de shows, não existem diferenças, e a vida noturna daqui se assemelha muito à vida noturna ocidental.
E para finalizar a minha primeira semana em Marrakech, e aproveitar meu domingo livre, visitei os "Jardins de les Palmeries" (por recomendação da querida Cris Lemos), um pequeno paraíso, repleto de campos de golf, lagos, palmeiras, árvores, e pássaros. Um parque luxuoso frequentado por gente de muito dinheiro. Quem me levou foi um taxista, chamado Mahmoud, um rapaz muito simpático, ele e o irmão (também muito gentil) já viraram os "taxistas oficiais", que me levam pra lá e pra cá! Na volta do passeio, passamos por um bairro de periferia, um gigantesco contraste social frente ao luxo do bairro vizinho. 
E sigo minha jornada, tentando compreender meus mecanismos de defesa, em todos os sentidos, começando a me habituar à vida no Marrocos, e lidando com a saudade e a solidão (e suas facetas), mesmo rodeada de gente, sentir-se só é inevitável, e não está nada mal aprender a lidar com essa sensação... Eu. de verdade, gosto desse exercício.


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