14-11-2011 17:41:44

Diario de uma brasileira em Marrakech XI

O dia amanheceu lindo, céu aberto, azul turquesa, e aqui na casa, a alegria natural da segunda, nosso dia de descanso. Me despertei ao som dos berros de um cordeiro, na casa de um dos vizinhos.
Por Livia Lucas

Ontem, segunda-feira, 07/11/2011, os Muçulmanos celebraram a festa do cordeiro, como eu havia comentado na ultima nota: “As famílias Muçulmanas sacrificam um cordeiro, simbolizando uma passagem do Corão, em que Abraham esteve a ponto de sacrificar a seu filho, Ismael, e recebe uma ordem divina de sacrificar a um cordeiro lugar do filho.
Quase todas as famílias marroquinas sacrificarão um cordeiro amanha as 10hs da manhã, em um ritual religioso, para comê-lo mais tarde. A festa do Cordeiro tem a mesma importância que o natal para os ocidentais ”

O dia amanheceu lindo, céu aberto, azul turquesa, e aqui na casa, a alegria natural da segunda, nosso dia de descanso. Me despertei ao som dos berros de um cordeiro, na casa de um dos vizinhos. Quando olhei pela janela da área de serviço, vi o animal pendurado, no terraço do edifício, pronto para ser sacrificado.  Saí da janela imediatamente, pois a minha disposição para a imersão na cultura alheia não inclui presenciar a degolação do animal, por mais ritualístico que isso possa ser.

Saímos de casa, eu e Cristian, por volta das 14hs, para dar uma volta (nem sabíamos onde, com as ruas vazias), e ao sair do apartamento, a porta ao lado se abre... uma senhora muito bonita e elegante nos convida, gentilmente para comer cordeiro com a família. Eu aceitei o convite, e imediatamente entramos na casa. Disse que sim, um pouco confusa, consciente de que meu estomago está em abstinência de carne já faz algum tempo - comecei essa dieta sem carne (com espaço para pouquíssimas exceções) há um ano - e pelo bem da integração cultural, topei comer a carne, tentando não me sentir culpada, ademais sabendo que teria um longo diálogo com a mesma no decorrer do dia, e principalmente da madrugada. E aqui estou eu escrevendo esse texto com uma puta de uma azia. Mas isso já não tem a menor importância.

Entramos na casa da vizinha, que nos acomodou na mesa da cozinha, com saladas, berinjela (com um sabor indescritível que só se prova aqui) e uma maçã açucarada, deliciosa, cravejada de frutos secos. Um festival de sabores para, um paraíso para o paladar aberto às surpresas gastronômicas do mundo árabe! Ela nos apresentou uma das filhas, que nos serviu um pedaço de cordeiro, depois chegou o marido, seguido do avô, da avó, da outra filha... E enquanto mastigávamos, cumprimentávamos os parentes que pela cozinha passavam.  Logo depois chegou Jhonny (o guitarrista) e a Lazara (pianista), também a convite da família. Depois de comer muito, e muito bem, passamos para a segunda fase... na sala da casa, onde nos serviram a sobremesa, uma saborosa torta de queijo feita em casa, acompanhada do típico chá de menta marroquino. E na sala nos aproximamos mais da família, das filhas do casal, e de um amigo, que nos explicou com excelente didática, o porquê da festa do cordeiro, além de aclarar algumas dúvidas sobe os costumes dos muçulmanos. O papo estava ótimo, leve e bem humorado, mas teve que ser interrompido, pois tínhamos outro compromisso. Deixei meu CD de presente e me despedi. Era hora de visitar a minha família Gnawa, a família de Malika, Yassin e Jalil. A família que me acolhe semanalmente, que me alimenta com pão e carinho, com o melhor chá de menta de Marrakech, e com a música que me inspira nos últimos tempos.

A hospitalidade marroquina se assemelha muito à nossa. Eles gostam de receber, de servir, de conhecer, da aproximação, do calor humano. Esse comportamento é tão natural para eles, como para nós sul-americanos.

Pegamos um taxi, e fomos direto pra Medina. O taxista nos deixou em uma praça pertinho da casa do Jalil. No meio do curto caminho até a casa, nos perdemos. É interessante, diria até, necessário,  se perder na Medina. Hoje as ruas cheiravam a churrasco, à brasa, a couro queimado – a propósito, o nosso apartamento também cheirava a couro queimado – as motos que ontem levavam os cordeiros, hoje transportavam somente o couro, coberto de lã. A ruas não estavam tão cheias como de costume, havia muita gente queimando os restos dos bichos (seus chifres, as carcaças, a cabeças) e algumas crianças e jovens aproveitando para se distrair fora de casa. Um senhor “órfão de dentes” (expressão de Lazara Cachao) se aproxima, reconhece o Cristian. O pobre coitado tinha só 4 notas no teclado, e falava pelos cotovelos, tenta nos ajudar, nos indicar o caminho, em vão! Seguimos dando voltas pela labiríntica Medina, nos deparamos com uma linda praça, passamos alguns minutos ali, contemplando a arquitetura perfeccionista dos portais, quando um mendigo nos intercepta, e nos mostra uma mesquita, onde através da janela observamos, discretamente, o silêncio, os tapetes espalhados pelo chão, a mulher que ali rezava, incomodada com a nossa curiosidade. Era a primeira vez que eu adentrava (ainda que fosse com os olhos) uma mesquita. Saímos da praça, sem rumo, dispostos a nos perder, quando então nos deparamos com a porta da casa do Jalil. O caminho nos pregou uma peça!

Dentro da casa, haviam 4 cordeiros “limpos” pendurados nas paredes, cordeiros que o Jalil se esforçou pra comprar, e só logrou no ultimo momento. Cumprimentamos a todos os familiares, que luziam um grande sorriso, de satisfação e alegria pela celebração daquela tarde. Peguei no colo a linda Amina, caçula da família (que se aproxima cada vez mais de mim), e logo depois entramos na sala. Malika nos serviu o delicioso chá de menta acompanhado de creps marroquinas, e dale mastigação! ... e conversa, e música. Ouvimos algumas canções do disco do grupo de Jalil, e assistimos a um vídeo de um programa de entrevistas protagonizado por ele, e outro, de uma obra musical de teatro, também produzida por ele, que remonta um ritual Gnawa chamado “Lila”. Mais tarde os despedimos da família, e caminhamos um pouco na companhia de Moneem, irmão de Yassin, que sempre nos acompanha até o final da rua. E assim fechamos a noite, regados a menta, uma conversa agradabilíssima, e muita informação. A segunda-feira não teve nada de descanso, mas teve muito de aprendizado, de encontros, de gastronomia, de andanças, de troca, de vivência. Foi um dia especial, desses que você termina esgotado e ao mesmo tempo agradecido pela oportunidade de viajar, de estar presente em uma parte do mundo onde nunca imaginou estar. Pois nunca imaginei chegar ao mundo árabe, integrar e me entregar a essa cultura...  E neste exato momento sou parte desse pedacinho do globo, e o levo comigo em matéria e memória, junto aos outros mundos que me compõem, que se unem pouco a pouco nesse conjunto de vibrações que vaga por aí, cantando, conhecendo, crescendo e escrevendo esses relatos.



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