02-12-2011 11:56:14

Diario de uma brasileira em Marrakech XII

Entre tendas ao ar livre, surge um senhor com um baita boticão segurando um dente, oferecendo-nos posar para uma foto, disse que era dentista,
Por Livia Lucas

Começa minha ultima semana de trabalho em Marrakech. Me sinto mais leve, muito mais integrada com a cultura, mais relaxada, no sentido musical, pois na luta por um repertório digno, posso dizer que venci a batalha, sem sombra de dúvida.

A jornada aventureira dos últimos dias foi deliciosa. A começar pela ilustre visita de uma grande amiga, a Luiza, que trouxe o sol, e muita alegria, tanto para mim, quanto para o Cristian (o percussionista) que também a conhece. Com ela explorei mais uma vez os rincões da Medina, tatuamos as mãos, comemos muito bem, e conversamos a tarde inteira, algo que eu precisava muito fazer. Que bom receber os amigos quando estamos longe de casa!

O gris invadiu o céu desde o fim de semana, a temperatura baixou vertiginosamente, e o inverno deu as caras. E mesmo com todos esses pormenores climáticos conspirando em contra, tiramos o dia de folga pra viajar, rumo à montanha, o famoso Atlas. Arrancamos com garoa, no velho taxi Mercedes, eu, Luiza, Cris, um colega nosso que conhece essas maravilhas naturais como a palma de sua mão. Fizemos uma viagem tranqüila e rápida (45 minutos) e baratíssima, diga-se de passagem – esses taxis grande antigos, quando viajam com muitos passageiros são muito econômicos, pagamos 2 euros por pessoa – até a cidadezinha com um nome impronunciável, cuja tradução na língua Bere Bere significa escorpião.

Debaixo de chuva e pisando lama, chegamos ao lugarejo. As mulheres deviam estar escondidas em alguma parte, pois não vi uma só mulher nas ruas do mercado, nem uma menina, nada além das roupas femininas penduradas nas tendas dos comerciantes. Passeamos, ou melhor, patinamos pelo local, e dançando na lama, fiz aquela usual visita à feira, que eu tanto adoro. O que me chamou mais atenção foram as barbearias, improvisadas, nos fundos da feira. Eram pequenas tendas montadas pelos barbeiros para atender aos clientes, e eis que no meio do caminho, entre tendas ao ar livre, surge um senhor com um baita boticão segurando um dente, oferecendo-nos posar para uma foto, disse que era dentista, agradecemos a gentileza, e seguimos andando, ele continuou insistindo para que parássemos e nos sentássemos em seu “consultório”, eu estava segura de que o homem era humorista,  um “palhaço” da feira. Mas ele realmente arrancava dentes, de forma bastante primitiva, não quis nem imaginar a dor que deve sentir um cidadão, sentado naquela barraquinha, aos cuidados do dentista palhaço. Dói só de pensar.

A chegada no vilarejo não poderia ser mais gratificante

A chuva estiou um pouquinho, e aproveitamos pra seguir caminhando rumo à montanha. A trilha era algo impressionante, linda. Adentramos um portal estreito que nos levou a um pequeno bosque. O passeio estava tão agradável que até o sol resolveu fazer uma visitinha rápida, iluminando o caminho e embelezando ainda mais a paisagem, durante todo trajeto contemplamos o rio e as montanhas, contando histórias engraçadas, rindo muito. E no meio do caminho Cristian nos comenta, que se conseguimos rir durante 15 minutos diários, ganhamos, a cada ano, um ano mais de vida, apenas com o ato de sorrir.

A chegada no vilarejo não poderia ser mais gratificante. Fomos recebidos por um cortejo de crianças, saltitantes, falantes, sorridentes com essa alegria infantil contagiante. Pareciam abelhinhas a nossa volta. O único problema são as moedas. Mesmo pequenas elas já sabem o valor do dinheiro, pedem moedas o tempo todo. E numa onda de compaixão Cristian cometeu o gravíssimo erro de sacar uma moedinha do bolso, o vil metal, a semente da discórdia. Os meninos se engalfinhavam, se descabelavam disputando a tal da moeda. E acabou-se o cortejo, acabou a alegria, acabou a paz. O que as crianças fizeram instintivamente, do auge da inocência e da ingenuidade, é o que acontece diariamente no mundo de maneira amplificada. Vi na cegueira tonta daqueles meninos um sinal do mal que a cobiça pode causar. Ficamos todos meio impressionados depois da cena da moedinha. E não demorou muito para que as coisas voltassem ao seu lugar. Imitei a galinha, e o gato (uma imitação peculiar) e virei a sensação do arraial, e digo mais, os adultos ficaram mais entretidos e impressionados com o meu zoológico do que as crianças!

Entramos no museu da cultura Bere Bere, acompanhados do anfitrião Halid. Uma linda casa, construída em barro, onde morava o prefeito do lugarejo, 70 anos atrás. A casa guarda um interessante acervo de fotos, tapetes, instrumentos e ferramentas e utensilhos. Do terraço da casa avista-se a montanha e todas as casinhas de barro da vila. É um lugar tão agradável que lá passamos a tarde inteira, vimos cair a noite e a chuva que não parava, tocamos, cantamos e contamos muita piada. E essa foi a parte mais interessante do encontro, pois estávamos, duas Brasileiras, dois Bere Bere (Halid e um colega),um chileno e um europeu, e nos comunicávamos tão bem que conseguíamos rir de tudo e fazer o outro rir. E foi terapêutico, nos descompúnhamos de tanto rir, e passamos horas nesse estado, uma catarse, uma explosão de alegria. Acredito haver ganhado 5 anos de vida em uma noite de gargalhada. Tomamos muito chá, jantamos, entramos de cabeça na cultura Bere Bere, com as histórias do nosso anfitrião, um homem de uma nobreza que se nota no olhar, de humildade e coração aberto, e uma gentileza admirável. Dizem que os Bere Bere são assim, um povo amável, leal, humilde e receptivo. E assim os percebi, com o pouco que convivi com eles.

Dormimos sorrindo, e ao despertar o sol também nos sorria. A chuva estiou e o céu estava precioso. Como tínhamos que voltar ainda de manhã para Marrkech, nos apressamos um pouquinho, tomamos um café, e descemos até a porta do museu, para fazer uma visita guiada. Entramos no universo Bere Bere, sua simbologia, seus costumes, suas histórias contadas a traves de cada desenho em cada tapete, algo impressionante, os tapetes que contam histórias. Saímos encantados daquele lugar. Embriagados de alegria, de sensibilidade e de amor. Uma viagem mais que relaxante, uma viagem emotiva, onde a sutileza dos gestos engrandecia cada momento.

O Marrocos foi uma das experiências mais fortes, dificeis e gratificantes da minha vida, tanto no sentido antropológico como emocional (uma bomba de emoções do começo ao fim), volto para Barcelona para uma vida nova, escrevendo a partir de outras perspectivas, nesse caminho tortuoso, misterioso e inexplicável que é a vida!


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