Veneza - Mostra 2014 - 

Hector Babenco : "Eu não me assusto mais com a morte de ninguém. Eu já estive tão perto..."

Entrevista Lica Cecato - 4 de setembro 2014
Hector Babenco diretor argentino radicado no Brasil (conhecido por Kiss of the Spider Woman, Carandiru e Pixote) apresenta em Veneza "Falando com Deus" ou "Words with god" a visão de 10 renomados diretores.

Micmag: Veneza dessa vez?
Hector Babenco : Sobre o Festival, estive aqui duas vezes só, mas nunca apresentando um filme meu, estive duas vezes como jurado, uma vez com Sergio Leone, que foi uma experiência muito simpática e a outra com o Ettore Scola, que foi uma experiência um pouco mais triste porque ele era muito autoritário, muito seco, muito rabugento, sei lá, foi meio chato com ele.
Esse filme que nós mostramos, Falando com Deus (Words with God), é uma coisa curiosa porque ele não é um filme, ele é um coral, são 10 diretores, falando sobre o mesmo assunto, cada um do seu jeito, da sua maneira, de acordo com suas idiossincrasias, seus países, suas culturas, uns mais parcos outros mais exuberantes, um mais econômico, outros menos econômicos.
M: é uma Babel!
H.B. : Tem de tudo. Quando eu fico pensando uma à uma, qual eu gosto mais ou qual eu gosto menos, eu fico  achando graça em todas. Acabo achando em cada um delas o porque dela existir.
Eu estou aprendendo a gostar. Um amigo meu, o Jabor, disse que eu estou parecendo cada dia mais com Madre Teresa de Calcutá, que não me queixo de mais nada, e aceito tudo com a maior alegria, mas a verdade é que já fui tão rabugento, mas tão rabugento, que fico até com vergonha, então agora estou um pouquinho mais bem educado!
M : E nessa era de pós-rabugento, como é que você vê esse festival?
H.B. : Não sei, não conheço festivais, são todos iguais.
Tem 2000 jornalistas debiloides com as pastinhas, vendo 14 filmes por dia, tendo que fazer entrevistas sempre com as perguntas mais óbvias do mundo,
se inscrevem por filme e o pessoal da imprensa, contratada praquele filme, te apresenta uma lista de 24 jornalistas que querem te entrevistar. 24 não dá senão eu vou ficar 3 dias falando o dia inteiro, então você escolhe 12, ou eles escolhem e os outros se colocam em mesas redondas, mas quando você vai investigar, nenhum deles é um jornalista com pensamento próprio. São todos repetidores de notícias trabalhando para pequenas rádios, pequenos canais universitários, pequenas televisões de cabo, coisas realmente muito pequenas, mínimas, que não tem proporção com o esforço que significa alguém estar vindo do Brasil, ser hospedado, alimentado, para falar para uma radiozinha numa periferia de Hamburgo, cujo público alvo são caminhoneiros de carga e descarga de bacalhau. O que esse cara, coitado, tem que ficar ouvindo um diretor de cinema brasileiro falando de Deus? Quer dizer, é uma piada realmente.
M : Mas não é uma cesta básica com 24 jornalistas, é?
H.B. : Claro, agora, vai explicar isso.
M : "Falando com Deus” (Words with God) é por conta de que cada um fala dessa coisa espiritual com os deuses?
H.B. : Você fala o que você quiser. Deus pode ser um pão com manteiga. Deus pode ser um momento de fé, um momento de silencio, em nome de falar com Deus duas pessoas se matam, as you like it, é muito bonito o tópico, daria até mais 3 filmes com diferentes diretores, cada um iria falar alguma coisa. Como sou ateu e não tenho absolutamente nenhuma espiritualidade, eu só acredito em ciência, quer dizer, posso acreditar em energias que se atraem, coisas como o acaso, as coincidências...
mas eu não acredito em milagre nem tenho fé nem eu adoro nada.
Se tem algo para adorar, adoro uma vista, uma paisagem, coisas que me roubam o olhar, ou seja eu sou pouco daquela turma que diz, “eu não escolho, eu gosto de ser escolhido”, tá? Então, estou ficando velho para essa filosofia.
M : Você viu algum filme fora o seu que você gostou?
H.B.: Não, vi aquele filme do Leopardi... Foi lindo porque me introduziu à um universo com aquela coisa meio claustrofóbica, aristocrática, católica, que é muito forte. Aquele comportamento dos pais, aquele tutor, os nobres italianos de 1700 ~1800, e igreja católica, não é, foram eles que imprimiram a marca latino-américa-hispânica. Você tem isso na Espanha e na Itália, um característica  muito mediterrânea deles. E sorte que o Brasil se salvou porque foi colonizado pelos portugueses bandidos, ladrões que só queriam  comer as índias, e levar madeira de volta pra Portugal e a igreja ficou lá pra trás, não é?
M : Pois é, os portugueses eram colonizadores que comiam preto, comiam índio, transavam com todos, né? Nós somos híbridos, Moçambique, Brasil, Guiné Bissau...
H.B. : Eu diria que o português era muito sexualizado, para usar uma palavra da moda agora. Antigamente era o tarado, hoje o fulano é sexualizado, Antigamente as pessoas ganhavam dinheiro hoje tem contrapartida, tem todo um vocabulário novo agora.
Micmag : Fiquei meio chocada com a morte do Robbin Williams, porque eu gostava dele e também vi dois filmes que tinham a ver com o tema de fama e não-fama e consequente suicídio...
H.B. : Eu não me assusto mais com a morte de ninguém. Eu já estive tão perto da morte duas vezes, que eu aprendi a lidar com ela com uma certa banalidade. Eu não consigo por ela em letras maiúsculas, até porque já sofri tanto, já estive tão perto da dor, até o ponto de desconhecer a própria dor, e a dor ser de fato o teu status constante, que quando alguém morre ... Recentemente um jovem que eu conhecia se matou, completamente inadaptado ao mundo, menino muito inteligente, muito bondoso, muito puro e que não aguentou a barra da cidade, a falta de recursos, a solidão, enfim não aguentou e se matou. Eu não consigo sentir a dor da perda, é como se eu estivesse anestesiado. Eu me pergunto, será que virei um cínico, será que sou uma pessoa fria, uma pessoa do mal? mas realmente....

M : Nos filmes tinha a morte, o suicídio de atores era por causa da fama ou falta da fama....
H.B. : Quem? O Robbin Williams? Eles estava trabalhando menos, estava sendo menos procurado, estava entrando numa certa decadência, mas isso não quer dizer que porque não pagavam.
mais 5 milhões de dólares para fazer um filme, que ele tenha que se matar.
Se você é realmente um cômico, um poeta, tem um gesto pra contar, vai trabalhar num bar, num piano bar, entra num comedy show, faz um programa pra cable TV, inventa algo, você não vai se matar porque a Warner não te chama mais, não te paga mais 10 milhões de dólares para fazer um Miss Dalloway 2, você está entendendo?

M : Como é que você vê a fama? Por exemplo quando você tem muita fama e depois de 3 anos você é esquecido, tem menos fama,  como é que se lida com isso?
H.B. : Ah, isso que você está perguntando é uma coisa muito banal. Não sei. Veja bem, quando você é uma pessoa muito exposta, porque você é considerado algo, artista, o que for, fica também muito complicado porque você não pode fazer certas coisas que você deseja muito porque fica feio você fazer isso. Você fica muito proibido de ser uma pessoa normal. Você não pode ficar com vontade de transar com alguém se você é o diretor do filme porque não se faz isso. Você não pode abusar do teu poder para subjugar alguém ou para subliminarmente imaginar que a outra pessoa possa.... hm, não sei, é complicado isso, eu sei que o diretor do filme está sempre muito isolado da vida real. Me isolam, me protegem, ou para que eu não caia, ou para que eu não saiba, ou para que nada me falte, é uma questão muito esquisita, mas eu não sou famoso, eu sou pequenininho. Famoso é o Robert de Niro, o Al Pacino, ...

M : Mas é a mesma coisa, um micro e um macrocosmos...
H.B. : Não, não é a mesma coisa, o Al Pacino pode fazer o que quiser.

M : Os filmes, Birdman e o The Humbling, falam da mesma coisa, do ator que quando envelhece e pela velhice...
H.B. : Não, tem gente que envelhece com dignidade, com beleza, trabalhando. Jack Nicholson não faz um filme há três anos, falei com ele no telefone outro dia. Falei, cara, vai fazer uma peça de teatro,  faz uma seleção de poemas e lê pros seus amigos, inventa algo, você é um ator. Vai ficar jogando golf?  Não dá...
Eu adorei fazer esse curta porque me deu a dimensão de que você pode ficar contando estórias de outra forma, com outros recursos. Te digo sinceramente que se eu não tivesse mais recursos pra filmar, eu sairia por aí com um grupo de jovens fazendo uns filmes, que me venham na telha, com amigos,  por exemplo, Lica, vem cá, preciso que você faça uma cantora de boate do lado de um piano, sabe? Sexy... e vou fazer um filme de alguma coisa, acho que eu vou, será que estou mentindo? Não sei.

M : Ouvi dizer que no festival de Veneza não se fecham muitos negócios, que não há muita compra e venda de filmes...
H.B. : Esse festival não é para isso, faz parte, é integrado, é uma festa tradicional dessas como o Natal, a Páscoa, o Carnaval. Para onde vai essa entrevista? Para o Japão?
M : Vai para a revista MicMag, na net, na web, e portanto, pode até chegar ao Japão, porque não?
Entrevista Lica Cecato



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