Veneza (Italia) - 

A Mostra 2017 : “Urgência de se falar dos problemas da humanidade”

Correspondência Lica Cecato - Setembro 2017
A Mostra italiana de cinema 2017 tem conteúdos mais ricos. A urgência de se falar do hoje surge forte. O trabalho de atores é mais intenso. Volta ao cinema como linguagem, gerada pelo pós- encantamento de explorações e efeitos tecnológicos.

Foto George et Amal Clooney -Veneza 2017

O tema, o eixo, a seiva da safra dos filmes da 74° Mostra Internazionale dell’Arte Cinematográfica di Venezia, somados, dariam um bom tratado social. Sem confundir com filmes de propaganda política, mas com clara preocupação política, econômica e social perante a atualidade mundial. Esse ano os conteúdos são mais ricos, a urgência de se falar do hoje surge forte. Vemos um trabalho de atores mais intenso e uma volta ao cinema como linguagem, gerada pelo pós- encantamento de explorações e efeitos tecnológicos.

Uma bomba atômica de desamor e desespero

Num momento histórico onde acreditar no homem é romantismo piegas, o cinema deste ano é feito de retratos da sociedade filmados pelo homem e para o homem, de tendência existencial. O microcosmo que se alastra ao macrocosmo, os mesmos fenômenos do pequeno núcleo, isto é, o indivíduo, a família, o vizinho, o desconhecido do metrô, etc., se expandem ao coletivo, às seitas, aos grupos de jovens ou velhos, aos aglomerados por classe social, religião, hobby, política, máfia.  Qualquer motivo, à sociedade toda, ao mundo todo, como radiações atômicas de existência e de coexistência. Uma bomba atômica de desamor e desespero. Nosso mundo nada otimista, pobre e abandonado, à mercê de sua vida sem êxito e sem saída, em contraste com seu lado rico, politicamente correto, esteticamente impecável, a construção pelo e para o capitalismo, onde tudo aparentemente funciona à perfeição. O medo do fim do mundo e a falta de solução concreta, faz parecer que o que nos sobra é usar a fantasia, viver um conto-de-fadas, como no filme The Shape of Water, De Guillerme del Toro, onde o impossível é possível e nos leva a sonhar um mundo melhor, já que o que construímos não deu certo.

Rampling, que foi aplaudida em pé mais de 15 minutos

O filme Hannah (Andrea Pallaoro) apresenta uma interpretação divina de Charlotte Rampling, nos panos de uma senhora parisiense que, depois de 40 anos de casamento, fica sozinha e o marido é encarcerado, por motivos de pedofilia que ela nunca havia suspeitado. Quase sem diálogos, la Rampling, que foi aplaudida em pé por mais de 15 minutos pela plateia extasiada após a projeção do filme, consegue transmitir uma miríade de sentimentos, pensamentos, sensações, de uma solidão metropolitana, que raramente se vê em cinema, teatro ou música. Bravo!

O valor do homem diminuiu drasticamente, frente ao poder econômico e bélico, intocável, o deus dinheiro. Diminuir o homem, assim o filme de abertura, DOWNSIZING (Alexander Payne), parte de uma ideia maluca de salvação da humanidade, isto é, reduzir de 1.80 m a 10 cm o altura/tamanho dos homens. A ideia é boa, e funciona bem na cena do início, quando trazem um vencedor do Nobel, cientista norueguês de 10 cm de altura que usa um megafone para explicar ao publico (obviamente americano) que o processo de “se apequenar”, possível após anos de tentativas científicas, pode ser a solução da superpopulação. O problema do filme é que a redução drástica do tamanho do corpo não muda nem a cabeça nem a estrutura social de quem adere à sugestão heroica de melhorar o mundo desta maneira. O filme acaba no pior final piegas, cheio de mini cidades idênticas à certas cidades “dos grandes”, do subúrbio americano e para piorar, Matt Demon, nas vestes de branco americano de classe média alta, acaba se apaixonando por uma perneta vietnamita e casa com ela.

Uma comédia trágica, de humor negro, anti-racista não convence.

Cafonice e mau gosto embora seja muito comercial e com certeza vai vender bem. Da mesma onda, o filme de George Clooney, com script inicial dos irmãos Cohen, Suburbicon, que se baseia nos anos 50-60 e no boom imobiliário dos Estados Unidos, mais um retrato da classe média norte-americana, racista e branca, numa cidade satélite do interior. Poderia ter usado a mesma cidade do DOWNSIZING, ia economizar bastante. A trama é simples, uma comédia trágica, de humor negro, anti-racista, mas não convence. Enquanto a maior parte da cidade está ocupada em linchar uma família de negros que foi aceita na cidadezinha quase que por engano, do outro lado da rua seus vizinhos brancos se matam, se trucidam, e ninguém nem nota. Os protagonistas, Julianne Moore e Matt Demon são bons atores.Produção muito cara, o filme de Clooney é melhor do que o DOWNSIZING em termos de ritmo e de script, poderia ser um bom policial, mas é inócuo. Que pena! Dessa mesma linha, meu preferido e o de muitos é o THREE BILLBOARDS OUTSIDE EBBING, MISSOURI, direção e script de Martin McDonagh, diretor anglo-irlandês, premiado pela Academy, que vem de musicais da Broadway, e faz no filme um trabalho de atores notável, tendo como protagonista a fantástica atriz Frances Mc Dormand como Mildred Hayes, mãe de uma menina de 17 anos que havia sido estuprada e morta, depois queimada, há sete meses sem que ninguém tenha encontrado o culpado. História intrigante, em uma cidadezinha americana do interior, é um filmaço que faz a plateia vibrar. Numa estrada da cidade existem 3 grandes cartazes de propaganda danificados pelo tempo, que a mãe decide de alugar e escrever, preto no vermelho, em letras cubitais, acusações à polícia local, ao xerife, William Willoughby (o ótimo ator Woody Harrelson). O filme parte de uma história simples mas envolvente e tem humor, é entretenimento, apesar de mostrar a grande desolação de perder um filho.

FOXTROT, de MAOZ, é um filme israelita, que também trata da perda de um filho na guerra, assim como FIRST REFORMED (Paul Shrader). Nos dois filmes, a música escolhida é parte fundamental do enredo, no primeiro, dá título ao filme e tem cena marcante do garoto de 17 anos numa frente de guerra, mostrando aos seus companheiros soldados, como se dança o foxtrote. No segundo, no final funesto de um ativista radical-ambientalista que se suicida, com a música de Neil Young, “Who’s gonna stand up (and save the Earth)” tocado no funeral, às margens do rio mais poluído da cidade por indústria química.

A música tem um papel fundamental em muitos filmes, desde Nico 1988 (Susanna Nicchiarelli), sobre a cantora da banda Velvet Underground à Ryuichi Sakamoto: Coda (Stephen Nomura Scheible), que conta com intimidade um pouco do processo criativo do artista, que vai à busca de sons raros como um piano que foi inundado pela tsunami, ou “pescando” o som da água nos árticos.

Na parte Orizzonti, em concurso, o fantástico filme da ganhadora do Leão de Prata em 2009 (Women Without Men), Shirin Neshat junto à Shoja Azari, Looking for Oum Kulthoun, conta a vida da cantora mais amada do mundo árabe até os dias de hoje, através de uma trama moderna, que indica a condição da mulher artista no mundo árabe, usando como personagem chave uma cineasta iraniana famosa que teve que renunciar à sua terra, marido e filho, para seguir carreira. No top, a cineasta decide fazer um filme sobre a cantora super star, que já não tinha mais vida própria, que pertencia ao seu público. Duas vozes de atrizes cantoras preciosas, a da cantora jovem e a da mais velha, causam arrepios de tanta beleza.

Outros, que estão fora de competição mas são excelentes, My Generation (Paul Batty), onde o ator Michael Caine descreve Londres dos anos 60 com extratos de filmes da época, Beatles, Rolling Stones, Twiggy etc. Por fim a modernidade com ironia e classe da música de Michael Jackson em THRILLER 3D (John Landis). As instalações e filmes feitos com Virtual Reality, foram mostrados em outra ilha e concorrem entre si, em categoria separada.

Hoje o exercício da liberdade e o fato de falar sobre isso, se tornou imprescindível.

Lica Cecato na Mostra de Veneza 2017-www.micmag.net 


Lista dos filmes vistos por nossa correspondente Lica Cecato na Mostra de Veneza 2017 :

Downsizing (Alexander Payne)                                    **

Espèces Menacées (Gilles Bourdos)                           *

First Reformed (Paul Shrader)                                       ****

Hannah (Andrea Pallaoro)                                             ****

Human flow (Ai Weiwei)                                               **

I Signor Rotpeter (Antonietta de Lillo)                           **

Il Legionario (Hleb Paou)                                              ***

Jia Ninn Hua (Angels wear White) (Vivian Ou)           ****

Lean on Pete (Andrew Haigh)                                                     ****

Looking for Oum Kulthum                                              ****

Loving Pablo (Fernando Leon de Aranoa)                    ****

Making of Michael Jackson’s Thriller 3D (J.Kramer)      ****

Marvin (Anne Fontaine)                                                ***

Mektoub, My love: Canto Uno (Abdellatif Kechiche)   **

Michael Jackson’s Thriller 3D (John Landi)                   *****

My generation (David Batty)                                                      *****

Nico 1988 (Susanna Nicchiarelli)                                  *****

Ourage Coda (Takeshi Kitano)                                    ****

Piazza Vittorio (Abel Ferrara)                                                       ****

Ryuichi Sakamoto:

Coda (Stephen Nomura Scheible)                               ****

Sandome no Satsujin (Kore-eda Hirokazu)                  ****

Suburbicon                                                                                  ***

Temporada de caza (Natalia Garagiola)                       ***

The Leisure seeker (Ella & John) (Paolo Virzì)             ****

The insult (Ziad Doueiri)                                                ****

The shape of the water (Giillermo del Toro)                 *****

Three billboards outside Ebbing, Missouri                   *****

Una famiglia (Sebastiano Riso)                                    *

Under Trénu (Hafstein Gunnar Sigurdsson)                 ****

Victoria & Abdul (Stephen Frears)                                ****

Zuibhu (Manhunt) (John Woo)                                     ****



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