De Paris : A redenção de Glauber Rocha

Por Gabriel Rocha Gaspar - foto Vanessa Oliveira & G.Rocha - 
“O mundo está acabando com o cinema de autor. E isso é uma coisa perigosa: depois que acabar, vai demorar 30 anos pra se recuperar um negócio desses”. Paloma Rocha tem quase um déjà vu geracional.
Paloma Rocha (filha de Glauber em Paris) © Vanessa Oliveira
Paloma Rocha (filha de Glauber em Paris) © Vanessa Oliveira

No Festival de Veneza de 1980, o pai de Paloma – e do cinema novo –, Glauber, vociferava contra público, júri, indústria cinematográfica e crítica, para quem quisesse ouvir: “Merda! Isso é um desrespeito à cultura! Os críticos que estão de acordo com esta premiação estão assinando sua própria sentença de morte cultural”. 

Aquela premiação (sentença) era o Leão de Ouro repartido entre “Atlantic City”, de Louis Malle, e “Glória”, de John Cassavetes, os dois bancados por grandes estúdios comerciais. Um ano depois, Glauber Rocha morreria só, com a certeza triste de que seu último filme, “A Idade da Terra”, não havia sido compreendido pela Europa, antigo bastião do cinema autoral independente. Coube a Paloma, também ela cineasta, a restauração e redenção da derradeira obra-prima.

“Por aqui, Glauber era visto em parte como um cômico escandaloso, que gritava o tempo todo."

Em 2007, o então presidente do festival, Marco Müller, assistiu a um pré-corte do documentário Anabazys (dirigido por ela e por Joel Pizzini), adorou e perguntou a Paloma se sua equipe conseguiria terminar a restauração de “A Idade da Terra” a tempo de inseri-lo no Festival. “A gente correu e conseguiu. Foi uma coisa muito importante, na sala grande, no dia do encerramento do festival. Hoje, Veneza reconhece a obra”. 

O reconhecimento estende-se pela Europa. O museu parisiense Jeu de Paume abriu nesta semana “L’Âge de Glauber”, uma mostra que exibe dez longas e oito curtas-metragens do cineasta. “Esta é a primeira vez nos últimos 20 anos que a obra inteira é exibida, com essa qualidade”, estima Paloma. Trata-se da obra inteira do Glauber diretor. Mas essa foi só uma entre as várias atividades de Glauber Rocha: além dos filmes, o legado do artista inclui milhares de páginas, não só de críticas e roteiros.

“Era um excelente desenhista também”, destaca o curador da mostra, Hervé Joubert-Laurentin. “Existem centenas de desenhos com um estilo muito parecido com o do (cineasta russo Sergei) Eisenstein, com linhas contínuas”. Esta faceta do artista, pouco conhecida até mesmo do público brasileiro, foi só a última da série de descobertas glauberianas de Joubert-Laurencin. “Por aqui, Glauber era visto em parte como um cômico escandaloso, que gritava o tempo todo. Mas, por trás da aparente incoerência, há um artista extremamente coerente e, sobretudo, um pensador da maior qualidade”. 

“havia amor entre Glauber e Pasolini, não só agressividade”

Tradutor do mestre italiano Pier Paolo Pasolini para o francês, Joubert-Laurencin começou a se interessar pela complexidade de Glauber Rocha quando leu o texto “O Cristo-Édipo”, numa edição de 1981 dos “Cahiérs du Cinéma”. Entre outras coisas, Glauber diz ao repórter francês Alain Bergala que o cinema pasoliniano “nunca é convincente”, chama seus personagens de “fracos” e minimiza a bárbarie exposta por ele – ela é “maquilada pela disciplina marxista e pelo misticismo católico”. Isso tudo antes de dizer que Pasolini encarna, na vida pessoal, um neo-sadismo fetichista, que ele vê como “renascimento do espírito fascista” da geração anterior. Mas, Joubert-Laurencin conta que “havia amor entre Glauber e Pasolini, não só agressividade”. O curador garante que “‘O Evangelho Segundo São Mateus’ (1964) é uma referência tão forte para Glauber quanto (Luis) Buñuel e (Luchino) Visconti”. 

Satisfeito com a retrospectiva, Joubert-Laurencin revela o sonho de expandir o trabalho sobre a obra de Glauber Rocha e vasculhar os arquivos do centro cultural Tempo Glauber, fundado pela mãe do cineasta em 1983 e mantido até hoje por Paloma Rocha. “Quem sabe um dia não possamos reconhecer, num museu, o artista plástico Glauber?”, ele cogita. 

"o Ministério da Cultura sob Ana de Hollanda, que Paloma critica abertamente"

Se, na Europa, essa ainda é uma ideia vaga, no Brasil ela pode estar mais próxima de se concretizar. Nos estertores da gestão Juca Ferreira (2008-2010), o Ministério da Cultura comprou do Tempo Glauber o acervo de desenhos, além de 22 mil páginas de projetos cinematográficos inéditos. Desde então, a divulgação deste material está a cargo da Cinemateca Brasileira. Embora boa parte já esteja disponível no site do órgão, Paloma espera vê-lo integralmente publicado no ano que vem, em uma gestão compartilhada entre a Cinemateca e o centro cultural.

Mas isso já poderia estar muito mais adiantado, não fosse o Ministério da Cultura sob Ana de Hollanda, que Paloma critica abertamente. A filha de Glauber Rocha acusa o órgão de ser “personalista”. Para ela, de 2010 para cá, tudo funcionou na base da “empatia do gestor com determinados setores da sociedade”. “O Tempo Glauber ficou praticamente fechado nos últimos dois anos. Todos os convênios foram sabotados, com as contas já prestadas... É uma perseguição política por nada, em nome de nada”. Como diria o próprio Glauber, “um complô da mediocridade”. Para Paloma, a produção cultural independente que pena no Brasil por falta de incentivo, falta de fomento, falta de tudo, deixa todo mundo “babando” quando consegue chegar na Europa. “Quem tem um pouquinho mais de articulação se projeta de uma maneira extraordinária se muda pra Europa e fica trabalhando aqui”, acusa Paloma. 

"O Brasil que interessa aos franceses é aquele que propõe novas linguagens"

De acordo com ela, é uma política de esmagamento sistemático da produção independente, que faz com que o cinema brasileiro não consiga se estabelecer com consistência. “A Índia tem um cinema, a Argentina tem um cinema, os Estados Unidos têm um cinema independente fortíssimo. O que acontece no Brasil é que tem um ressentimento, um complexo de vira-lata”. Em outras palavras, o Brasil se orgulha mais dos blockbusters tupiniquins, como se, ao imitar o modelo de produção hollywoodiano, pudéssemos pavimentar o caminho do reconhecimento internacional. 

Pelo menos na França, esta filosofia dá com os burros n’água. O Brasil que interessa aos franceses é aquele que propõe novas linguagens, é aquele Brasil de Nelson Pereira dos Santos e Glauber Rocha. Até por isso, o programa de “L’Âge de Glauber” inclui filmes de diretores quase desconhecidos, como Marina Meliande e Felipe Bragança, que co-assinam o road movie musical “A Fuga da Mulher Gorila”. O que eles têm em comum com Glauber Rocha para estar nesta retrospectiva? “Nada”, responde calmamente Hervé Joubert-Laurencin. “Talvez, justamente o fato de fazerem algo que não parece com nada, que é completamente autoral”.

Paloma, que viveu a vida inteira inserida no cinema independente, está imergindo ainda mais. Neste exato momento, ela prepara o que chama de “oferenda cinematográfica”. “Macumba é trabalhar com a essência dos Orixás e fazer uma oferenda. Eu trabalho com a essência dos personagens é faço minha oferenda”. Concretamente, trata-se de seu primeiro longa de ficção, Makúmba, orçado em R$ 2 milhões. O filme, construído em torno de personagens alegóricos de inspiração freudiana – como Tabu Pai, Tabu Jovem, Criadalma, Carafiz e Anan –, tem desenhos de Marcel Veber, direção de arte de Moacyr Gramacho, fotografia de Luis Abramo e trilha sonora original de Naná Vasconcelos. Por que Makúmba, com K? “Porque sendo filha de quem sou, tinha que ter uma marka (com k)”, ri Paloma. 

Gabriel Rocha Gaspar - foto Vanessa Oliveira
L'âge de Glauber
Jeu de Paume
1 place de la Concorde
75008 Paris

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