Brasilia - voiz libre

Lamentações de um crápula enquanto o dia não vem

POR EBERTH VÊNCIO, Revista Bula - 8 janeiro 2013
De vez em quando eu morro. As noites são quase todas assim: agitadas, pegajosas, mescladas com suor e desespero mesmo nos dias mais frios. Padeço dos piores pesadelos e eles se repetem. Os roteiros são parecidíssimos, cópias das cópias, mas não consigo me acostumar, muito menos, me afeiçoar a eles.

Sou duro feito diamante, mas eu sofro. Tenho cá minhas fraquezas. A morte me visita, de repente, travestida em nuances abjetas, detestáveis, escabrosas. Faca na barriga, veneno no cálice, ar injetado na veia, arame na traqueia, afogamento numa bacia sanitária, estilete na jugular, disparos nas têmporas à queima roupa, queimado vivo com querosene, linchamento com porretes.

Noite sim, noite não, eu morro. Eu e a foice, enfim, sós, para a minha mais completa miséria. Ressuscito aliviado assim que os primeiros raios de sol fincam o escuro do quarto. Sinto-me mais isolado e desolado que a cadela Baleia nos quintais de Graciliano Ramos em "Vidas Secas". Aliás, eu, assim como as folhas e os dias, estou secando a olhos vistos. Já perdi treze quilos, uns trezentos amigos e quase toda a parentalha. Se minha mãe não tivesse morrido de desgosto enquanto eu estava foragido e ocultado em Pasargada, seria a única a me adular, a oferecer o seu colo caquético para eu recostar a cabeça.

Nas últimas semanas, a imprensa, os paparazzi e outros putos têm feito campana na porta de casa, no escritório da empresa, nos corredores azuis do Congresso. Se pudesse, com a autoridade dos cento e cinquenta mil votos recebidos nas urnas, eu esmagava os jornalistas, moia suas carnes, ossos e as "notícias quentes de última hora". Bando de carcarás. Eu juro envenená-los com a minha própria carniça. Vão ver só.

Virei figurinha carimbada nos magazines. A revista "Veja", há tempos não vê um bandido mais pernicioso do que este vos escreve. Nos dizeres da "Carta Capital", sou o campeão brasileiro dos pecados capitais. A "Piaui" quer me mandar a PQP. O Jô deseja-me preso, já. Sou o anti-herói da vez, um Judas trajando verde e amarelo. Sou o elo entre a maldade e o capeta. A opinião pública adoraria crucificar-me. Agora sinto na carne o que passou o bom Jesus ao ser trucidado pelos seus inquisidores. Nunca antes na história das injustiças cometidas contra um só homem houve tamanha esculhambação.

Minha bela esposa — olhos verdes como cédulas de cem patacas, a tez sedosa como dinheiro recém saído do prelo — virou "musa nacional da corrupção" nos dizeres dos malditos jornalistas. Confessou-me foi sondada por meia dúzia de revistas masculinas interessadas na contratação de ensaios fotográficos sensuais alusivos a "Operação Mamãe Eu Quero" da Polícia Federal. Aliás, quem batiza as operações da PF? Quem, de forma absolutamente brutal e desumana, decide arrombar com uma marreta a fechadura da porta da frente de uma residência às cinco horas da manhã? Quem escolhe o cardápio azedo que é servido pelos carcereiros na cela especial que, de especial, possui apenas os ódios particulares de seus ocupantes temporários?

Sim. Eu vacilei. Sinto-me o mais competente dos trouxas. A campanha avassaladora, sub-reptícia, para fazer de mim um bode expiatório não para de avançar. Creiam: vou abrir a boca na hora certa. Sou apenas a ponta de um iceberg no copo de uísque de toda essa corja.

Admito que errei, mas, quem dentre vós jamais o fizeste? Atire a primeira moeda quem nunca sonegou! Meu pai já errava, quando principiou a jogatina subterrânea no século passado. Meu pai, bom filho que era (que Deus o tenha) deu sequência aos negócios tolerados da família, mantendo sempre um bom relacionamento com o Poder, ao ponto de batizar primogênitos de delegados, secar garrafas de champanhe com a juizada, receber títulos honoríficos nos parlamentos, e virar nome de praça, com direito a busto de bronze e tudo mais.

À noite, na cama, quando fecho os olhos, fico totalmente a mercê dos meus algozes. Às vezes, morro mais de uma vez dentro do mesmo pesadelo. Sabem lá o que significa isto? Onde foi que eu errei? Repetindo o Rabi: por que me abandonaste, Senhor?

Nada como um dia após o outro. Quem ri por último ri melhor. O bem vence no final. São provérbios desgastados, porém, alentadores, e que eu sigo a murmurar a fim de amortecer a revolta contra os companheiros.

Deus é testemunha do quanto ralei para chegar até aqui, Deputado Foderal campeão de votos no meu Estado, uma das maiores fortunas do país de acordo com a "Revista Fortune", a "Caras" e os relatórios do Ministério Público.

É Natal. Ninguém mais, além da leitoa assada sobre a mesa, sorri para mim, mesmo com uma enorme maçã enterrada na bocarra. Até mesmo Raimunda, a cozinheira analfabeta que eu importei do Maranhão (raio de mulher!), disse que não volta depois do feriadão. Minha fogosa esposa, futura mãe dos filhos que nem tive ainda, não sabe por quanto tempo resistirá ao assédio das revistas pornográficas, contudo, antes de me abandonar às vésperas do Natal, deixou escapulir que será âncora num programa de entretenimento e joguinhos burros na TV aberta.

O céu está fechado, o clima está fechado, o banco está fechado e as minhas contas obstruídas. No meu céu solitário, nuvens carregadas. Carrego nos ombros todo o arrependimento de ter sido pego com as mãos na cumbuca, de cair nas escutas autorizadas e nas desautorizadas também. Sinto-me mal como um carrasco ao decapitar a própria genitora.

Agora mesmo tive outro sonho violento. Novamente, eu morria. Desta feita, a execução deu-se enquanto eu dormia: uma estaca de mogno cravada no coração (feita com uma galha daquele lote de madeira apreendida, inadvertidamente, pelos homens do Ibama na minha gleba amazonense) de cima para baixo, de surpresa, covardemente, como se eu fora um vampiro. Morte de cachorro sem dono. Execução aplaudida em pé pela sociedade, e comemorada, com reservas, pelos meus pares nos negócios paralelos, companheiros do temporariamente desorganizado crime organizado, comparsas do colarinho branco respingado com meu sangue escarlate. Enquanto eles brindam espumantes no reveillon, a minha alma late nos portões do paraíso. Estará Deus em casa?



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