22-10-2011 18:33:03

Diario de uma brasileira em Marrakech III-IV

Fui muito bem recebida pela família de Yassin, que mora dentro da Medina (aquele labirinto de ruas estreitas). O cous cous estava delicioso, de lamber os dedos, literalmente, pois comi com as mãos.
Livia Lucas (Marrakech)


Amanhã, domingo 23/10, completo 15 dias de Marrakesh, e já posso dizer que tenho duas vidas aqui. Uma vida diurna embrionária, em todos os sentidos, pois começo a conviver com a cultura e a música Gnawa, com a vida Marroquina “de verdade”, e com um trabalho junto aos bebês, de uma associação para crianças abandonadas. À noite vivo a vida “fake” de animadora noturna, no baile diário em que estou imersa, onde tudo pode acontecer!

Na minha vida “verdade”, conheci a Fatha, a moça que cuida da limpeza no lugar onde canto. Ela me ofereceu ajuda para comprar roupa branca  – me explico... Durante a semana visitei uma associação que abriga e encaminha crianças, ou melhor, bebês, cujas mães rejeitaram, por diversos motivos. Na semana que vem começo a trabalhar e servir a essas criaturinhas (que tem um olhar profundo, terno e carente), e para isso preciso vestir-me de branco, e colocar o véu na cabeça – fomos à Medina, eu ela e Lazara Cachao (a amiga pianista). 

"Malika, a matriarca, super simpática, fazia de tudo para me deixar à vontade, naquela casa humilde"

Ir à Medina acompanhada de uma Marroquina são outros quinhentos. O taxi saiu pela metade do preço, e as roupas baratíssimas. E no final ainda me deram aquele curso básico para iniciantes na moda Islãmica, e eu já saí com o traje e a técnica, pronta para a fase de integração.

Na mesma tarde conheci o Yassin, um jovem músico Gnawa, amigo da minha grande amiga Luciana Passarini, um rapaz super gentil. Acompanhada de Yassin passeei pelo Jardin Majorel (de Yves Sant Lauren), uma impressionante mistura de plantas, diversas, cores e uma bela arquitetura. Também passeamos em moto pela cidade, pelos bairros e pelo teatro Royal, um teatro de arena, o mais importante da cidade, com uma breve pausa para comer, a comida mais barata e popular que eu comi até os dias de hoje!

No dia seguinte, sexta-feira, almocei cous cous, como é de costume entre os muçulmanos. Fui muito bem recebida pela família de Yassin, que mora dentro da Medina (aquele labirinto de ruas estreitas). O cous cous estava delicioso, de lamber os dedos, literalmente, pois comi com as mãos. Yassin e o pai, Jalil (que conhecerei na semana que vem), são Grandes músicos, o filho toca guimbri e canta e o pai canta e toca percussão. Antes do almoço tive o prazer de ouvir o guimbri   a voz de Yassin, que para mim soava como um mantra. Estar sentada naquela salinha, rodeada de tapetes e almofadas, sem calçados, ouvindo aquele lindo e delicado instrumento foi algo muito gratificante. Me senti acariciada pela sutileza e simplicidade daquele momento. Malika, a matriarca, super simpática, fazia de tudo para me deixar à vontade, naquela casa humilde e aconchegante. Até tirar um cochilo eu tirei com EME senti tão bem recebida que até tirei um cochilo com ela depois do almoço, foi uma maravilha!

Mais tarde na minha vida de “mentira” - digo de mentira por que não consigo ser espontânea em nenhum momento, e nem forço a barra, sou o que o momento pede, fazer o que?! – experimentei o gosto agrio da rejeição do público. Foi uma rejeição sutil, porém sincera, uma situação que nunca vivenciei de tal maneira, diferente da indiferença, costumeira dos locais de música ambiente, e o oposto do que presencio em meus projetos apaixonados onde eu me entrego totalmente. Como aqui que manda é o cliente, eu pareço um fantoche, um ventríloquo da música.

 A primeira das 3 fases da apresentação, é a melhor, pois canto boleros, à minha maneira, e posso até interpretar, que beleza! Depois da segunda fase, lascou... e tome baile! Mas aqui o povo dança de Gipsy Kings a La Bamba num ritmo 6X8 típico Marroquino. E quem faz o povo dançar e anima o espetáculo é o lider da banda, Sandro, um verdadeiro Show Man, que já tem o público na mão. E eu canto algumas canções conhecidas, e quase sempre sobro que nem “jiló na janta”. Uma fantástica ginástica de redução de Ego, esse Ego tão vaidoso acostumado à calorosos e duradouros aplausos. Ninguém me abraça, ninguém me adula, não há elogios, não me conhecem e não rasgam seda pro meu lado. Eu posso cantar qualquer canção, da maneira mais bonita, se não for o que eles querem, são indiferentes. Em muitas ocasiões sinto a artista “morta” no palco, sem presença e sem luz, por conseqüência da falta de naturalidade (me orientam, a movimentar-me com um tal charme e elegância que não são meus), acho que com o passar do tempo me sentirei confortável no papel dessa personagem.

Hoje, por primeira vez, terminei uma canção com aquele final arrebatador "infalível" e falhou! Uma linda nota prolongada... e só ouvi o silêncio da platéia, e o estalar de uma palma. Auuhh!!! Doeu, e ao mesmo tempo valeu. Valeu para acostumar-me à idéia de que nem sempre agradarei ao público, e mais do que nunca,  a cantar para a música e pela música, pois ela é a estrela, por mais que o público não queira nem saber. Valeu para aceitar à idéia da indiferença, ou da rejeição, e aprender a seguir cantando e sorrindo.  Pois no meu caso, habituada aos mimos e aplausos da platéia (seja ela grande ou pequena), e quando não há mimos, acostumada a cantar o que me apaixona, me deparo com a ausência dos dois de uma só vez. Na falta de mimos e de paixão, o que fica é uma profissional, aprimorando os conhecimentos da anatomia da voz e do ser. É isso o que sinto, já que não existe um medidor que classifique a nossa vaidade com exatidão, confio na sensação, de que a mesma baixou de peso, em 15 dias, o que eu não logrei em quase 10 anos cantando. E o saldo dessa experiência segue positivo, e eu sigo disposta a enfrentar às surpresas que a vida me reserva, nessa fase tão especial, complexa e repleta de descobertas.

Texto IV– Cabaré e o Ritual de iniciação

Inesquecível, é a única palavra que pode descrever a experiência que vivi esta noite.
Sandro, o cantor e diretor da banda em que canto nos convidou para ir a um bom cabaré. Um cabaré marroquino se difere em vários aspectos do típico cabaré que conhecemos, ou imaginamos conhecer.
A única semelhança que essas salas têm com uma casa noturna comum é a decoração ("cafona" e exagerada, como tem que ser), as luzes, as cortinas, as fotos nas paredes. Entrei, recebida por dois seguranças tipo "duplex" - como é de costume em qualquer casa noturna que se preze - desci as escadas, e me deparei com um enorme salão, escuro, iluminado sutilmente por luzes vermelhas e azuis, poucos grupos sentado nas mesas, algumas prostitutas...  e no enorme palco que havia no centro, uma verdadeira orquestra de música tradicional.
A voz da cantora tomava conta do lugar, mas eu não conseguia encontrá-la, nem no palco, nem nos espaços rastreados cuidadosamente por meus olhos. A esposa de um dos rapazes do grupo que nos acompanhava me explica que a cantora está sentada em uma das mesas, cantando para os clientes do cabaré. Os cantores levam um microfone sem fio, e interagem com o público o tempo inteiro, dedicam canções, os convidam a dançar e a subir no palco.
São muitos os cantores, e se revezam a cada 3 ou 4 canções, e eram tantos que não cheguei a presenciar nenhuma repetição em 3 horas. A banda não pára um minuto, o violinista toca com o violino na vertical, apoiado na perna. Haviam 2 percussões e uma bateria, teclado e guitarra, e soava maravilhosamente bem... Estávamos sentados em uma mesa grande, todos os músicos (Lázara, Jhonny, Simon, eu e Sandro), a esposa de Sandro, uma marroquina super interessante, que fazia aniversário essa noite, e um grupo grande de amigos deles. 
Sandro, que já canta no Marrocos há 6 anos, e está completamente integrado, cantou duas musicas, com total domínio de palco e do público marroquino. Eu que nesse momento da minha vida, mais escuto que falo (por incrível que pareça!), fui inevitavelmente "sacada" da cadeira para dançar o ritmo contagiante da música que soava. Me levaram para o palco... e eu estava mais perdida do que cego em tiroteio, tentando dançar como eles. Até o momento em que o anfitrião me diz: "dança samba!". E assim foi! E dancei, e me acabei, e foi uma loucura! E depois de mostrar meu rebolado ouvi: "pense sempre no que vai fazer" (se referia a dançar a minha dança, ao invés de tentar imitar a dança de outros). 
Tentei tomar fôlego, recuperar-me da descarga de energia, mas tudo o que eu inspirava era fumaça de cigarro. Até o momento em que o cheiro mudou radicalmente... era um cheiro bom, sedutor, que vinha dos narguilês espalhados pelo salão. E minutos depois, estava eu saboreando a fumaça daquele perfumado artefato. Aprendi bem rápido! E não parava!!! O sabor a baunilha, a suave sensação de tranqüilidade, e a novidade de fumar, de ser envolvida não somente pelo gosto e pelo cheiro, mas também de ser impregnada, através desse ritual, pela cultura, pela música e por essa realidade, me encantou! Me acertou em cheio, e eu era só sorriso, satisfação e entusiasmo! Depois dessa experiência impressionante, minhas cadeiras (que já estavam pegando o passo) se moviam levemente, meus ombros sabiam como balançar, minhas mãos conheciam o ritmo, e eu me senti bem vinda, por primeira vez, nessa terra misteriosa, e envolvente.
Quero aprender a cantar, aprender com os cantores daqui, com a força que eles transmitem, com a variedade de cores que podem sair de uma só nota!
Os cantores se revezam, a banda não. E o que eles ganham são as notas de dinheiro que os clientes dão aos cantores, e que os mesmos logo depois depositam em um elegante baldinho prateado no centro no palco.
Conhecer esse cabaré foi viver uma vida em poucas horas, abrir a mente e os sentidos, e deixar-me seduzir pela beleza da noite marroquina!







 

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