27-10-2011 13:44:21

V&VI-Diario de uma brasileira em Marrakech

Seguindo os passos de uma legítima Marroquina, entrei por primeira vez em um hammam (banho árabe) público, acompanhada pela minha mais nova amiga Fatha.
Por Livia Lucas - Mrararkech

 Ela me buscou em casa, e fomos caminhando até a sala de banhos. La chegando, guardamos nossas coisas, e dei inicio ao segundo ritual de iniciação na vida Marroquina. Orientada por ela peguei os utensílios necessários para o banho, me despi e entramos na grande “sauna” repleta de mulheres e crianças, e baldes espalhados pelo chão. Todas as mulheres se banham juntas, conversando, esfregando a pele, e ajudando umas às outras outras. Me lembrei muito da minha amada Beta, ela adoraria passar por essa experiência, em um banho coletivo, uma celebração entre mulheres, despidas de pudor, despidas de “frescura”, inundadas de feminilidade, de naturalidade, de beleza e de cuidado. Queria que ela estivesse lá comigo, conhecendo o verdadeiro Marrocos, o Marrocos humano, que ela tanto desejou conhecer. Ela estava comigo! Querida Roberta... minha companheira de inúmeros ensaios de “hammam”, de infantis e despudorados banhos e conversas de banheiro, desses que só as boas amigas sabem como são. Que fortes são essas emoções e recordações que vêm à tona!

Eu, timidamente comecei o meu processo, completamente desajeitada. Fathra, muito gentil e amável, me explicava absolutamente tudo o que eu tinha que fazer  (ela fala árabe, e só um pouquinho de francês, a nossa comunicação é precária, e ao mesmo tempo nos fazemos entender, e morremos de rir ). Enchemos dois baldes, e nos sentamos em um cantinho, no fundo da sala. Ela me deu champú e uma escovinha para o cabelo, lavei a cabeça, em seguida me deu um potinho com um sabão negro pastoso, típico daqui, enquanto eu passava o sabão observava uma moça ao meu lado, esfregando-se com força... E também via todas as “impurezas” que saiam a cada esfregada. Logo depois de lavar o cabelo, ensaboar-me e enxaguar-me, Fatha me deu uma esponja-luva, para esfoliar. A esponja era áspera como uma lixa, e com ela eu esfreguei o corpo... Comecei a esfregação de forma frenética, sem a mínima noção do que estava fazendo, ela me explicou a maneira correta, e quando eu acertei o movimento, começaram a sair as impurezas do meu corpo, pura pele morta, pele velha, que nem eu sabia que estava no meu corpo, sem a mínima utilidade!

O hammam é uma limpeza profunda, que vai dos pés à cabeça. E na hora de limpar as costas, necessitamos ajuda, logicamente, então nos ajudamos umas às outras. Fatha me dizia, “quando você chegar no trabalho hoje vão perguntar, cadê a Lívia?”. Essas mulheres que se escondem detrás dos véus e das roupas são dotadas de uma beleza sutil e marcante, uma personalidade e uma força impressionantes.

Fazia calor, muito calor, e no final do processo eu já estava agoniada, jogava água fria no corpo pra me refrescar, e o calor rapidamente voltava a me perturbar, saí da sala e senti um alívio tremendo! Me sequei, toquei a minha pele, era de uma suavidade inacreditável, fantástico! Uma experiência renovadora, um momento único, um contato profundo com o lado feminino dessa cultura, que vai me seduzindo aos poucos, me conquistando, me encantando. Pisei a calçada e me sentia nova, no sentido amplo da palavra!

Texto VI – O limite da tolerância

Inicio da terceira semana em Marrakech, e já ando pra todos os lados (de dia), dentro e fora da Medina, compro a preços marroquinos, os taxistas acendem o taxímetro quando entro no taxi, uma maravilha! Eu já me acostumei a andar com o véu na cabeça, e esse é um pequeno grande detalhe, que influência muito no meu dia-dia.

Ontem foi o meu primeiro dia trabalhando com os bebês, ainda estou meio perdidinha, mas foi muito bom. Conversei muito com Amina, a assistente social, que me explicou como funcionava tudo, e me fez uma bateria de perguntas (muito engraçado), perguntou sobre a minha vida pessoal, sobre o meu trabalho aqui, sobre o apartamento onde eu moro, o meu salário... súper curiosa! Passei duas horas na associação e logo depois peguei carona de moto com Yassin e fui conhecer Jalil, o pai, músico Gnawa, muito simpático e receptivo. Desde a semana passada, passo sempre na casa deles e fico algumas horas com a família quase que diariamente, comemos, conversamos, tomo o “chá de menta” que eu adoro, eles fazem música e eu escuto. Ontem Jalil me explicou um pouco o que dizem as letras das canções Gnawa e me ensinou a cantar uma delas. A música Gnawa é de uma delicadeza, de uma sutileza, que chega facilmente à alma. E com a alma repleta de musicalidade e euforia chego volto pra casa, e da casa vou para o ensaio do meu “trampo” noturno.

Até agora consegui montar o meu repertório, dentro do contexto,  sem afetar a minha dignidade musical, tão estimada, construída ao longo da minha trajetória. Mas ontem, o dono da banda me apresenta uma lista nova, com algumas canções interessantes e uma quantidade de temas cafonas impossíveis de cantar, e pela primeira vez, senti a minha alma de cantora ferida, e precisei enfrentar a situação, e lançar um NÃO categórico. Pois o NÃO também existe como resposta. Então ele disse que não havia negociação para aquelas canções, que eu teria que cantá-las, que o público pede, etc. Ele me explicou, eu compreendi. Mas não topei.

Então pedi que ele buscasse outra cantora, que esteja à vontade cantando esse repertório, pois eu abro mão do trabalho. Sou muito grata a ele pela oportunidade de estar aqui, mas não consigo ferir as minhas convicções, não posso, não devo e não tenho vontade! A música é uma jóia, uma preciosidade na minha vida, a música pulsa nas minhas veias e no meu coração, e cantar por cantar, ir em contra da minha verdadeira missão, é levar um tiro no peito! Abdiquei, chutei o balde!!! Até aí chegou a minha flexibilidade, que já me doeu um bocado!

Bom... segundo acertamos ontem, sigo cantando o que já aprendi (son cubano, cumbias colombianas, landú peruano, bossas, uns sambinhas, e boleros), sigo aprendendo com a digníssima Lazara Cachao, sigo dividindo a música e o dia-dia com ela e com o Cristian (que acaba de chegar de BCN pra tocar percussão com a gente). E eles têm até o dia 1 de dezembro pra encontrar outra cantora, que esteja feliz fazendo esse trabalho. Pois eu to fora! Nesse meu teste de resistência, eu não estou disposta a extrapolar o limite.

 

Tirei um peso enorme das costas, abri o meu coração, fui honesta, primeiro comigo, e segundo com os meus companheiros de trabalho. E me sinto leve, me sinto bem, sinto que em breve a minha essência voltará a florescer! Não vivo sem cantar, não vivo sem interpretar o que brota da minha alma. Não há dinheiro no mundo que me compense esse prazer, essa elevação, essa plenitude!!!

Me parece que ficarei menos tempo do que esperava, algumas pedrinhas seguem no sapato da “funcionária” da música, mas esse sapato agora pisa um solo mais seguro, e pode andar pela cidade cor de terra com a alma mais leve! Pude sentir a importância da palavra NÃO, o peso e a força que ela tem dentro da gente, quando usada no momento certo!

E dale aprendizado! Aprendi a afirmar minha posição, a dizer NÃO, a valorizar minha música como nunca, e perceber a sua grandeza.





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