12-12-2011 14:26:05ROBERT WILSON cheio de bossa NipoRobert Wilson apresenta "Krapp's last tape" de Beckett no Athénée Louis Jouvet em Paris. "Mise-en-scène perfeita, sóbria gaiola contemporânea em branco e preto".
Por Lica Cecato (Paris) ![]() Na cena o desenho de um IDEOGRAMA: MA, definição de pausa, de momento-entre, entre objeto observado e personagem que observa, e vice-versa. Um espetáculo sem pausas, sem “entre-actes” feito e composto de pausas e “entre-actes”. 間 A mise-en-scène perfeita, sóbria gaiola contemporânea em branco e preto. Obsessiva simetria “engaiolante” e dentro dela o homem só, desenhado em texto por Samuel Beckett, desenhado em cena e personificado por Bob Wilson. Um Bob Wilson refinado, um lorde da loucura, gestos medidos e pornografia num traço de Shun-Ga (ilustrações eróticas e pornográficas japonesas). Gestos “Kabuki-anos” para descrever sentimentos atuais, congelados em frações de segundo, possibilitando ao olho do público, de ter o tempo de incorporar o desenho no ar. Será que a principal característica cênica do teatro japonês Kabuki é exageração e que a solidão que existe no texto de Beckett para esta peça é tão radical, a escolha “japonista” da interpretação de Bob Wilson casa perfeitamente com o texto. Transparecem tanto no autor quanto no ator um forte sense of humour, usado com parcimônia, em pequenas doses, muito eficazes.
O espetáculo propõe uma viagem no tempo-espaço e até aí, nada de novo…MAS existe algo de desconcertante, nada à toa, picante, como pode ter sido o momento que Lucio Fontana decidiu cortar a primeira tela, o momento belo e trágico do corte da tela, a mudança da historia por causa do corte da tela. No caso deste espetáculo, os contrastes chegam a doer. Dentro do seu rigor em branco e preto, as poucas cores conseguem se sobressair de maneira marcante, cortam a cena a boca aberta vermelha que solta gritinhos, ou as meias soquetes vermelho vivo, como moldura exótica de uma roupa qualquer, de um ser cinza, quase um ser qualquer, não fossem essas pequenas exagerações que escapam da jaula como pássaros livres, rebeldes, única chance de respiro face à pressão social, que nos coloca todos em gaiolas. O corpo do ator é um objeto cênico e vale frisar que NADA é feito sem ser proposital (incluindo o gritinho histérico num momento clue).
Eu sou tu.
Bob Wilson é arquiteto de formação. Eu viajo nas várias arquiteturas, como por exemplo a do texto, onde Beckett é intrigante e hiper moderno e a arquitetura do personagem criado por Bob Wilson, permeados das arquiteturas de suporte como as luzes, o som e o cenário. Não posso deixar de citar o teatro de gosto barroco, quase uma caixinha de joias, que foi escolhido para a encenação dessa peça em Paris, o Athenée Theatre Louis-Jouvet. Que enorme contraste das poltronas setecentistas e do cenário árido, seco, da secura e rigor que só poucos artistas plásticos como Hiroshi Sugimoto ou Aurelie Nemours podem compreender, que só a obsessão de Yayoi Kusama pode suportar.
Eu sou tu.
Bob Wilson e Buster Keaton se confundem, me vem à mente continuamente cenas do filme experimental mudo de 1965, realizado por Alan Schneider, escrito por Beckett, onde Keaton atua esplendidamente. Nas duas situações, na peça “la dernière bande – last tape” e no filme, as cenas de um homem só, isolado, que da sociedade só tem lembranças banais. Um homem só, com suas recordações que, apesar de banais são só suas, indivisíveis com o outro. O único OUTRO que pode observar a obsessão solitária de ambos os personagens é o público. Mais um contraste? Bob Keaton ou Buster Wilson e o dono do tabuleiro de xadrez é Samuel Beckett.
Um parênteses, meu pai sempre dizia que se a gente ao interpretar uma canção, coloca ênfase em toda a extensão da canção, a gente não vai conseguir obter efeito nenhum, ênfase nenhuma em nenhum lugar. Bob Wilson é rei do chiaro/scuro, do fortíssimo/pianíssimo e é rei do tempo e espaço que rege com cautela, dedicação e atenção. Extremamente musical, ele trabalha na elasticidade do tempo usando a luz e o som que começa do nada e volta ao nada no fim do espetáculo, abrindo e fechando um ciclo que a gente é induzido a acreditar que durará para sempre. O homem só, que quando se encontra só, fica aflito de ver sua solidão cíclica, mas que cai nela, é deglutido por ela e desaparece no aglomerado de homens sós, que sós no seus cantos, se pensam únicos.
Pausas definidas, congelamento de ação, do objeto cênico HOMEM são intermediadas de luz/sombra do ambiente, jogo esse que chega a ser maldoso de tão perfeito. Chove, tempestade, relâmpagos. Um homem imóvel sentado em sua escrivaninha. A cena inteira é desenhada por riscos de luz na cena Black&White, como pinceladas de luz na grande sombra que cai sobre este homem. Uma chuva de verão, SAMIDARE (em japonês), muito usada nas gravuras de Hiroshige. Uma sala retangular PB, com mesas cinzas laterais e 3 luminárias de almoxarifado em cima de cada prateleira, iluminando as pilhas ordenadas de papeis e as caixinhas. Um painel traseiro sugere uma livraria que me lembra o mapa das casas de Dog Ville (Lars von Triers), traços de luz branca desenhados à perfeição sobre o painel negro. Pelo menos 10 minutos sem nenhuma ação, a não ser a da luz e a sonoridade do grande temporal a-temporal. Nenhuma ação a não ser um pedaço de olho, o canto da boca, as mãos, quase que acidentais, permeados pela luz dos raios da tempestade. Quando a luz se acende, ou melhor, quando a sombra sai de cima do HOMEM, vê-se um gravador de rolo tipo Revox, e do outro lado uma pilha de papel e um livro. O homem tem medo do seu passado. Toma coragem. Se levanta, segue lentamente, arrastando os pés no chão, até o gaveteiro de sua escrivaninha. Sabendo que o título da peça é “a ultima fita de Krapp”, pensa-se nas fitas, no gravador e Puff! Ficamos desconcertados quando o tabefe na cara chega ao ver que em vez da fita que ele manuseia com pavor, o HOMEM pega uma banana, volta a sair de perto do gaveteiro, e representa, aqui sim completamente, uma cena absurda do prazer da sacanagem, de teatro Kabuki com cabaré de travestis. Descasca a banana com graça, joga fora a casca-que-virou-flor, num sinal de transgressão, enfia a banana na boca e num gesto fálico e eficaz, em termos cênicos, deixa a banana pendurada na boca, STOP, para, deixa que todos “engulam” a cena para depois começar a comer a banana com apetite e ritmos normais. No meio da comedia, a tragédia implícita da solidão exacerbada e do medo de ouvir o que está gravado na fita, aquela tatuagem do tempo. O ritual da banana se repete. Quando já estamos desistindo que o HOMEM vai ter coragem de ouvir a fita, ele nos surpreende de novo, pega a fita e começa a ouvir. A primeira parte do espetáculo, que ao todo tem 1:10h sem pausa, é MUDA. Algumas poucas expressões de susto ou de gozo, são exprimidas na voz com sons ou onomatopeias. O rumor forte da tempestade só cessa quando o HOMEM decide e aceita de ouvir a fita que está na caixa três, fita número cinco, e a partir desse momento começa o processo de fusão e de consequente CON-fusão entre o HOMEM que está na cena e o HOMEM que está na fita gravada, que é o mesmo mas é outro. De novo a matéria cênica se entrelaçando entre o CORPO como objeto cênico e a VOZ DA FITA como coadjuvante, ou o contrário. Eu sou tu. A voz gravada na fita provoca reações entre reconhecimento, recusa, embriaguez e ódio. O diálogo com o passado. Atrás do painel traseiro, o som de uma garrafa da qual ele supostamente tira a rolha e bebe vinho, brandy, whisky? O bêbado critica o bêbado, o bêbado ama e odeia o bêbado. Eles se casam e se divorciam inúmeras vezes. A VOZ DA FITA, ora como objeto-em-si ora como parte daquele corpo que a observa e escuta.
Nesses todos HOMENS multiplicados estamos nós, está o reconhecimento de nossas solidões, os nossos espelhos escondidos, os olhos do outro que não queremos que veja a nossa solidão, se depositam assustadoramente em frente a nós mesmos, como na ultima cena do filme com Buster Keaton. Incomoda saber que todos nós temos um “last tape” escondido nas nossas gavetas. Infinitamente pessoal, sinto que nessa chave mora a dualidade mor dessa peça, o publico faz parte da cena, a cena faz parte do público e naquele momento ninguém usa celular. Fusão, confusão e ORDEM ~ TRANSGRESSÃO.
No Kabuki a gente torce pelo personagem preferido, gritando seu nome, no teatro de Bob Wilson, todos gritavam Bob, Bravo!! E eu concordo. Síntese
LUZ SOMBRA
PB COR (POUCA E FORTE, PÉS E BOCA)
RIGIDEZ DA CENA PEQUENAS LOUCURAS DE KRAPP
REPETIÇÃO REJEIÇÃO DA MESMA
INDECISÃO DECISÃO
COLECIONAR JOGAR FOR A
TEMPORAL CICLICO, ETERNO
EMPILHAR DESTRUIR
Teathre Athenée Louis-Jouvet Interpretação e direçãoo Bob Wilson Texto Samuel Beckett Cenografia Yashi Tabassomi Iluminação A.J.Weissbard Som Peter Cerone Colaboração com a mise en scène Sue Jane Stoker Assistente Charles Chemin, assistant lumières Xavier Baron. Fotografias de Lucie Jansch |
Photo extraite du film de Mario Grave - S'abonner sur notre canal Youtube pour avoir accès à nos films :
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