01-03-2011 13:01:22

O Encouraçado Líbia

“Bombardeiem o Palácio, ele e seus soldados! Matem-no, se precisar. Mas não o deixem mais no poder. Basta. Eu pagarei a reconstrução.” Esta mensagem foi enviada à ONU por Muammar Kadhafi.

Por Mariângela Berquó (jornalista)


 Falava do presidente da Costa do Marfim Laurent Gbaggo, na semana em que os estudantes egípcios ocuparam a Praça Tahrir exigindo Liberdade. O homem que se considera Zaim – um líder guru – e realmente acredita ser o Rei dos Reis da África tinha confiança absoluta no regime de terror que praticava. Tanta que jogou esta chuva de pedras em telhado alheio pensando que o seu fosse indestrutível e sua fortaleza inexpugnável.

Muammar Kadhafi, em seu bunker-Palácio, lembra o livro Das Schloss do tcheco germanófono Franz Kafka.

Das Schloss, traduzido como O Castelo significa também Tranca, trava. O Castelo governa uma cidade e o Palácio governa uma nação tribal da qual é alienado. O Castelo representa uma burocracia, o Palácio uma tirania que também faz incursões esporádicas às ruas mas sem interagir com vivalma, a não ser para explorá-la, na ficção literária, e na realidade Tripolitana, para subjugá-la. Os labirintos do Castelo representam a confusão mental dos homens; as tramas do Palácio, de um só homem desvairado. A verdade do Castelo é impenetrável e fora dele o povoado calcula e especula sobre o que não sabe. A verdade do Palácio é 

Trípoli por sua vez lembra Броненосец Потёмкин, O Encouraçado Potemkin. A obra prima cinematográfica do mestre dos mestres Serguei Eisenstein. Neste filme precursor da Revolução Russa de 1917, Eisenstein reproduz na tripulação do encouraçado os seguimentos da sociedade que se rebela com determinação e coragem. A sequência marcante é a do massacre nos degraus da escada monumental de Odessa, que os soldados descem de maneira ritmada (pela composição de Dimitri Chostakovitch) empurrando a multidão em um frenesi que culmina com a célebre cena do carrinho de bebê que escapa escada abaixo em uma dramaticidade rara. Pois bem, Kadhafi transformou Trípoli na Odessa do século passado com violência dobrada, pois além de soldados, a região está cheia de mercenários sem nenhuma consideração pela vida humana, apenas por quem os paga. E quem paga é um homem que sabe que está no fim da linha e antes do trem despejá-lo quer esmagar o máximo de pessoas que ousaram desafiá-lo.

 http://mariangelaberquo.blogspot.com/


 

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